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13 de janeiro de 2011

UM DEUS PERTO DE MIM


Desde muito pequeno embora não tivesse numa religião, aprendi com meu finado avô DAVID, de que existia Um Deus. Mesmo ele sendo da Congregação Cristã no Brasil, o que mais lhe aflorava na sua fé simples e humilde era a certeza de Um Criador que lhe gerava um sentimento e uma convicção de criatura amada pelo divino. Meu avô paterno DAVID fazia questão de deixar a Bíblia Sagrada, num lugar solene, de destaque. Falava do Sagrado com respeito e humildade, era um autêntico pregador do que Ele aprendeu oralmente. Não discutia doutrina, não fazia pouco caso de uma ou outra religião, porque sabia que Deus era Somente Um. Mas para mim o Deus que meu avô falava não estava ao meu alcance. Imagina que Ele nem sabia que nós existíamos. Aquele homem de apenas uma visão, de cabelos brancos, de mãos calejadas e de palavras santas e sagradas. Seu amor e carinho pelas criaturas irracionais o faziam o homem-irmao. Ele era uma expressão clara do amor, do perdão e da misericórdia de Deus emprestada num homem do campo. Meu avô fazia Deus se achegar perto da gente. Amenizava minha curiosidade de saber como Deus é.
Aos fins de semana ia para lá. No sábado ajudava meu Avô David a limpar aquele gigantesco, lindo e misterioso bosque, com a vassoura caseira, varríamos a folhagem da semana, com uma carriola que pelo meu tamanho mais parecia um avião....rs... Enchíamos de folhas secas e as levávamos para outro lugar. Aquilo para mim era satisfação, pois estava junto com meu avô, partilhava de suas histórias, de seus assovios, de sua voz afinada que de quando em quando entoava uma moda de viola. Quando silenciava, Deus falava em sua criação. Sentia-me bem ao lado de homem de Deus.
Enquanto estávamos no Bosque, minha avó Tica se encarregava de preparar o almoço num fogão a lenha que desde as 4 horas da manha já estava acesa. Às 9 horas da manha minha avó ia até nós e anunciava o almoço que tinha comida era simples e um sabor de felicidade. Isso se repetia às 13hs, no café da tarde com tinha pão caseiro, bolo de fubá, bolinho de chuva, bolacha Mabel ou pão mão molhado no ovo batido e depois frito. A janta sempre era parecida com o almoço. À noite meu avô e minha avó ao som de um rádio a pilha sempre sintonizado na AM dançavam. E eu era o sonoplasta.
Sempre me encantaram suas palavras quando no fim do domingo voltava pra casa, que ficavam alguns quilômetros dali, depois de lhe pedir a benção ele dizia: “... DEUS TE ABENÇOE, VAI COM DEUS, E QUE NOSSA SENHORA E OS ANJOS DA GUARDA TE ACOMPANHE...”. Embora os quilômetros fossem poucos, mas com aquela minha bicicleta pequena demorava uma eternidade. Confesso que a bênção do meu avô me acompanhava pelo meu caminho. E se durante o caminho sentisse medo de algo, bastava me lembrar daquele Deus que meu avô havia invocado para me abençoar. De alguma forma Ele me acompanhava pela estrada. E de outra forma aquele Deus que eu julgava estar tão distante de mim, naquele momento se fazia tão próximo, tão perto e aquele Deus passou a ocupar um lugar especial na minha vida.
Ao chegar a casa sentia-me feliz, pois como era bom estar junto com quem à gente ama poder ajudar meu avô no seu trabalho e ser ajudado por ele na minha vida. Além do tudo meu Avô tinha a condição de trazer Deus tão próximo de mim. A noite rezava por aquele homem que em sua simplicidade e humildade trazia os traços de Deus e Deus através daquele simples homem se fazia cada vez mais próximo e mais junto de mim. Minha semana de aulas, trabalhos iniciava já na espera de novamente estar perto daquele Homem que tinha o dom de encurtar a distancia entre Deus e um menino sonhador.
Foi assim que descobri que Deus se faz longe para aqueles que não acreditam e não para os que acreditam. Pois os que acreditam trazem Deus dentro da sua vida. Como é bom saber que existe um Deus tão próximo de nós. Deus muitas vezes se encontra dentro de nossa própria casa, mas não temos a coragem e percepção de encontrá-lo, porque ainda não nos encontramos.

12 de janeiro de 2011

DEVOLUÇÃO GRATUITA

Na minha vida faço esforço contrário de me ver como as pessoas me vêem. Entendo que seja muito fácil criticar, sem nada oferecer em troca. É muito fácil cobrar, sem mostrar o como fazer. Falo isso porque em vários momentos somos espelhos para as pessoas. Algumas projetam em mim desejos que nunca tive, algumas preferem encontrar problemas sem mesmo que estes existam. Talvez pelo simples fato de não aceitarem em mim o que eu aceitei. Algumas julgam sem mesmo terem certeza. Outras dão opinião sem mesmo que tenha pedido. Alguém que se policia em não trair seus ideais, mesmo que alguns estejam tão distantes. Mesmo que alguns se pareçam tão utópicos. Mas eles são meus e de muitos, eles são motivo e razão de ser o que sou. Nunca tive vergonha da minha vida. Mesmo quando ela foi  sofrida, difícil, quando criança, nas perdas. Sei que existem pessoas que vivem disto; querem cuidar da vida dos outros. Sei que existem pessoas que fariam de tudo para não cumprir meus ideais. Sei que existem pessoas ao meu lado interesseiras. Sei que não posso abraçar a todos, pois muitos não querem devolver meu abraço. Sei que muitos querem exclusividade de alguém que há muito tempo deixou o convívio constante da família, dos amigos para ser livre, feliz, realizado.
Sei também que tenho pessoas maravilhosas ao meu lado, pessoas aquém acredito que sempre estão me apoiando no que faço. Pessoas que simplesmente com seu riso, com seu silêncio me acolhem no aconchego de seu canto, do canto do coração. Pessoas que nunca quiseram de mim além do que não posso oferecer. Pessoas sem estudos, sem faculdades, sem discursos. Pessoas de abraços gratuitos, de beijos paternos, maternos, sinceros. Pessoas conscientes da devolução dos meus abraços, pois sabem que existem muitas outras pessoas que esperam por ele. Pessoas que passaram algumas vezes, mas que eternizaram as passagens. Pessoas que nunca cobram, porque a sua gratuidade ensinou a ofertar mais do que cobrar. Sei que estas pessoas não precisam de mim e nem querem que eu precise delas. Mas juntos doamos parte de nós. E assim vamos acrescentando um ao outro. Sem que nada falte ou sobre em nós. Como o mundo seria melhor se as pessoas não tomassem para si o que pertence aos outros. Não teríamos a fome, a injustiça, a opressão, o ódio. Mas o mundo ainda não é assim. Entendem por que lhes convido a fazer o que faço?
É no movimento de abrir mão de algumas coisas, para ganhar outras, é no conflito de valores e de normas que sou feliz. Não partilho das formas que algumas pessoas fizeram da sua vida. Não deixemos que se percam nossos sonhos e nossos ideais por pessoas mesquinhas que não querem devolver a nossa gratuidade. Siga, caminhe, lute, transforme, se arrisque. Acima de tudo confie porque a gratuidade do receber e do devolver não pertence às lógicas da razão, mas ao gesto divino que está humanizado em cada um de nós.