21 de junho de 2013

Os dias frios e o fogão à lenha

Com a chegada desse tempo frio, chegam também às lembranças carregadas de saudades. Em geral poucos gostam do frio, eu prefiro gostar o que ele me lembra, do que ele provoca em mim.O frio me faz sempre viajar com as palavras no tempo, basta fechar os olhos e ter sensação de estar vivenciando tudo novamente. Parece ser tão real que muitas vezes as lágrimas correm pelo rosto, vão abrindo caminhos e aumentado a saudade e a saudade vai guiando-as através do tempo. O frio me faz lembrar o sítio. É verdade que era tempo difícil, o frio era mais rigoroso, mais intenso e as condições de vida eram menos favoráveis. Nossa casa era simples, humilde. Bem! Permitam-me que eu descreva nossa casa. Era uma casa antiga, janelas e portas de madeira com frestas deterioradas pelo tempo que serviam para entrada e saída de brisas, ventos e também sonhos. O telhado desgastado pelos anos não tinha forro, era tecido por algumas teias de aranha que ali na nossa casa, fizeram suas casas. Naquela casa de 5 cômodos, nos dias frientos e de modo especial aos sábados o que mais gostávamos(meus irmãos e eu) era de acordarmos cedo e correr para cozinha. Lá existia todo um clima, não que em nossa cozinha existisse grandes apetrechos, pelo contrário era simples(fogão,geladeira,estante velha,uma mesa de madeira), mas ali naquele lugar tão simples havia algo que pouco se encontra hoje. Era um fogão a lenha dos antigos(a prova era as paredes escuras pela sua fumaça), grande, espaçoso com forninho e tudo(como a gente dizia lá no sitio). Quando acordávamos, papai(trabalha na pedreira) e mamãe(na cidade) já haviam saído pro trabalho(grandes pais temos, nunca mediram esforços pra nós) sob o fogão à lenha, o coração da casa, havia o bule de café, com alguns bolinhos de chuva feitos por mamãe. As brasas esquentavam nossas vidas e nossos sonhos. Subíamos no fogão na parte que se põem lenha. Ali projetávamos nosso dia. Dia de gente do sítio, dia de criança, tínhamos nossa fazenda, nossa pedreira, nossa usina, tudo em brinquedo. Mas que pela nossa dedicação eram tão reais como as roupas sujas ao fim do dia, como os roncos dos motores de caminhões, tratores, carros que imitávamos.....rss.....era tudo tão real, que os exageros de velocidade, de manobras com os brinquedos, muitas vezes era corrigido pelo meu saudoso irmão do céu com uma simples frase: "carro de verdade não faz isso"... .-. Sob aquele fogão íamos tomando nosso café, aquecendo nossos sonhos e acabando com os bolinhos de chuva. Aquele fogão era nosso depósito de sonhos, de confissões, de brigas(rs). Ah! Os nossos sonhos! Quantos deles nós realizamos, quanta saudade do fogão, da vida simples, do meu irmão Rodrigo. Por isso que nos dias mais frios nunca me esqueço do fogão à lenha, a vida simples. Das coisas mais absurdas que sonhávamos e eram depositadas no silêncio daquele fogão. O dia frio não conseguia nos vencer, ou melhor, vencer aquele velho fogão que durante mais de 8 anos sonhou conosco e ouviu nossas confissões. Hoje o fogão e um de meus irmãos não existem mais, os sonhos sim, o frio também e por conseqüência a saudade. Quero lhe dizer hoje que o frio me faz lembrar de quando os irmãos sonham juntos, se ajuntavam e ali partilhavam a vida, fazia família. As coisas mudaram hoje cada um segue sua vida, toma o seu café, faz sua refeição, tem o seu sonho pessoal. As coisas pioraram irmão tem ódio de irmão, irmão mata irmão, irmão destrói o sonho de irmão. Naquele tempo o velho fogão a lenha servia para nos unir e nos esquentar, hoje com tanta mudança percebo que há necessidade de muito mais do que um simples, velho e aposentado fogão a lenha para aquecer o frio, o coração e partilhar os sonhos que juntos se realizam mais fáceis. Porém quem teve seu fogão à lenha sabe que teve um tesouro na sua história, que nem o tempo, nem o mundo, nem as pessoas conseguem tirá-lo da nossa vida. Só quem morou no sítio é capaz de eternizar seu fogão à lenha.

5 de março de 2013

Mulheres de ontem e Mulheres de hoje


Em nossa vida existem pessoas que são imprescindíveis. Lembro perfeitamente de pessoas que tanto fizeram por mim na minha infância, de modo especial a mulher Maria Aparecida. Eram tempos diferentes, totalmente distintos de hoje. A precariedade das técnicas, tecnologias. Já a ciência era apenas uma esperança mesmo que distante de nosso mundo rural parecia ser apenas benéfica.
As dificuldades existiam e com elas a ausência de tantas coisas essenciais. Como vocês já sabem, éramos muito pobres. Casa simples, arquitetura antiga, luz de lamparinas. Embora tudo isso fosse motivos para desânimo ou para covardia, nunca foi assim em nossa casa. Minha mãe vinda de uma família de mais 10 irmãos, meu Pai de uma família incomum naquele tempo de apenas mais dois irmãos. Entendo que há mais de 30 anos atrás papai e mamãe tinham motivos bem mais alicerçados e justificados para pensar muitas vezes em gerar vidas. Porém não existia meio termo naquela época – se houvesse eram casos isolados – mesmo com dor, sem condição, sem ciência (medicina) por perto, como nossas mulheres eram corajosas.
O tempo passou. A ciência já não é apenas benéfica como imaginávamos lá no sítio. Pelo contrário é infectada pela ideologia que por sua vez é uma faca de dois gumes. Ela se prostitui pelas conveniências e pelos interesses (sociais, financeiros). Nossas mulheres  superaram parte da submissão ganharam direitos e deveres. Sim. Tudo isso se deveu a luta, briga e reivindicação. Dia 8 de Março, passou a ser o dia dedicado a mulheres. De maneira honrosa e respeitosa. Não há como negar que a distância entre homens e mulheres diminuiu. Mesmo que ainda falte muito por fazer, a busca pela igualdade é válida e reconhecida.
Minha mãe é mulher neste novo mundo de facilidades e possibilidades. As que ela não tinha quando era mulher de outro tempo. Ela não sabe manipular muito bem o mundo virtual e nem é grande devota da nova ciência. Ser mulher do ontem ensinou mamãe e muitas mulheres serem fortes e corajosas no hoje. Diferente das mulheres da “era cientifica”, que não sabem definir a velhice e a estética, o bem e o mal, o medo e a liberdade, o aborto e a vida. Mulheres que são levadas pelo markentig, pela ciência maléfica, pela prorrogação da vida e principalmente pelo desprezo de um embrião. Que comodismo. Como nossas mulheres de outrora tinham respeito pela vida. Como elas não mediam esforços e sacrifícios para nos colocar no mundo. Hoje estamos aqui por elas. O que me entristece é saber que muitas mulheres, filhas das Mães do ontem, que hoje não dão o mínimo de valor pela vida. Que futilidade aparecer na mídia julgando capaz de fazer o que bem se entende com o próprio corpo. Que exaltação do corpo. Que desprezo pela vida.
Tudo bem podem me chamar de sarcástico, masoquista, podem me apresentar inúmeras questões e possibilidades de abordo. Minha resposta é a resposta de minha Mãe, mulher do ontem, mulher do sofrimento, mulher da ciência precária, mulher do sim, mulher da vida. Não medindo esforço para essa vida que hoje vos fala.
Mulheres de Hoje que seguem as mulheres de Ontem e não compactuam com a interrupção da vida. Ainda bem que nos restam, algumas mulher do hoje que nasceram como mulheres do ontem, que são capazes de de significar e amar e não apenas de existir. Obrigado por vocês existirem e não ter colocado inúmeros empecilhos para nos gerar, hoje e sempre o dia será de vocês.