19 de dezembro de 2011

É NATAL


      Adentramos em uma época que é a mais linda e vivida em fraternidade. Assim resta-nos ainda uma esperança que brota no encontro dos corações, nos apertos de mãos, nos abraços calorosos e nos beijos gratuitos. É Natal. Por alguns instantes esquecemos as desigualdades; etnias se misturam, pobre e rico cantam juntos: É Natal. O olhar fixo da criança e riso do idoso voltando a ser criança brilha: É Natal.
        Já ao longe escutam-se o badalar de sinos e as luzes enfeitam as árvores, casas, vilas, cidades. Elas que estão carregadas de história e de muitos pedidos. É Natal.
        Uma luz brilha depois do horizonte, talvez é a estrela da esperança que guiou os reis magos até o Menino Deus. Hoje se seguirmos esta luz com certeza ela nos levará ao drogado, ao excluído, ao mendigo, ao encarcerado, ao doente, à prostituta: É Natal.
        Queremos que neste findar de ano e no celebrar o nascimento de Jesus, possamos renovar nova vida na caridade. O sonho é mais lindo quando é sonhado junto, bem pertinho: É Natal.
        E então quando iluminados pela luz da simplicidade, da humildade, entenderemos o porque da manjedoura e não do Palácio: É Natal de Jesus e é Jesus quem dá sentido ao nosso Natal.
        A você que sempre está em nosso coração, nós retribuímos com nossas orações e preces. Agradecemos muito pelo carinho, acima de tudo pela grande amizade que mesmo sem muito contato, acabamos estabelecendo um amor fraterno e mútuo.
        Façamos de nosso coração um presépio, onde verdadeiramente possa abrigar e deixar nascer o menino Deus. Para que assim o Natal de Jesus se transforme no Natal da Nossa Vida.

28 de novembro de 2011

No Advento da Vida

Na Liturgia da Igreja Católica encerramos o Tempo Comum de 34 semanas e entramos noutro conhecido como ADVENTO, ou seja, a chegada, aparecimento do Emanuel(Deus conosco).
Gostaria porém de falar do ADVENTO DA VIDA. Vida e Advento. VIDA; mistério pleno pouco conhecido, mas muito cobiçado. Vida longa, vida curta, vida gratuita, vida cobrada, movimento intrínseco que só o mistério conhece, aliás, partida e chegada que não pertencem à esfera do humano, mas do divino. Mas é entregue ao humano a possibilidade do ADVENTO, ou seja, da espera. Esperamos mesmo sem que saibamos o dia, à hora. Esperamos mesmo em algumas vezes sem saber por que, pra que, o que. E por que esperamos? Porque o esperar vem de esperança. E a esperança é senão o dado motivador e misterioso da vida. Imaginemos como seria a VIDA sem que tivéssemos motivos e razões para esperar? A Espera é um pedaço da nossa transcendência. A Espera é um gole do ainda não. A espera é horizonte avistado ao longe. A espera é tempo de recomeço. A espera está grávida do advento.
O tempo de espera na vida, chegada, de aparecimento. Não deve ser um tempo de sofrimento, de martírio, mais sim um tempo de rever, de crescer, de olhar no espelho e conseguir enxergar a esperança que está sendo gestada. A pressa nos faz insensíveis às coisas mais importantes que temos na vida. Ter pressa pode nos transportar ao futuro sem que vivamos o presente, este que é gestação do futuro. Por isso a pressa aborta muitos sonhos, objetivos e muitas vidas. A espera minha gente é pedagoga que nos faz compreender através de nós mesmos.
Se ainda hoje muitas coisas não aconteceram na sua vida, não desanime. Não aborte pela pressa, mas confie no avento da vida nova que está sendo gestada.
Espere pelas coisas e insista nas pessoas, geste-as dentro de você, só assim estaremos transformando possibilidade em realidade, presente em futuro, pressa em espera, descrença em esperança. Não esqueça que existe sempre alguém muito perto esperando por você.

18 de novembro de 2011

Um novo dia

Já era manha quando o celular anunciava dia novo. Os raios do novo dia invadiam as frestas da janela ainda tímidas é verdade, mas já revelavam que estavam ali. Ainda querendo um último despreguiço rolar de um lado para outro. Como é engraçado quando acordamos a primeira coisa que pensamos  se tivesse oportunidade de dormir um pouco mais. A noite já passou o descanso muitas vezes não foi suficiente, mas é hora de recomeçar. Esquecer dos sonhos, dos pesadelos, do dia passado e mergulhar num dia novo. Sentado na cabeceira por alguns minutos fazendo as primeiras orações do dia. Ali alguém agradecendo pela noite, pelo descanso e principalmente pela oportunidade de vida. É maravilhoso viver, passar pelos outros com nossa vida, deixar um pouco dela. Sem sacrifícios e mesquinhez levar um pouco da vida do outro. Não sei exatamente como me sinto, mas me senti hoje tão pequeno, tão fraco, tão mesquinho, tão incapaz. Não sei se foi pelo motivo de olhar para mim mesmo e perceber como Deus me fez perfeito fisicamente. Abrir os olhos e enxergar as maravilhas de sua criação, ouvir os barulhos mais diversos, sentir o aroma e sabor das coisas, poder me locomover sozinho, olhar meus braços, minhas mãos, minhas pernas, meus pés e pensar que estou fazendo muito pouco por mim mesmo, pelo outro. Mas como é ruim me lembrar dos que não enxergam, dos que não sentem, dos não que ouvem, dos que não andam, dos que não pegam com as mãos, dos que ao menos conseguem se levantar de sua cama, mas que faz muito mais do que eu. Eu aqui agradecendo por mim, mas já se esquecendo da solidariedade com os que não são parecidos comigo. Como não damos valor ao que somos, ao que temos, parecemos muitas vezes eternamente insatisfeitos com o que somos, querendo sempre ser mais. Achando imperfeições onde há perfeição. Ao passo que estes desfigurados de nascença ou pela vida levam seu dia no sacrifício, na descriminação, no não. São felizes e satisfeitos com a vida. Engraçado como os valores são invertidos os que deveriam murmurar riem os que devem rir murmuram.
É ruim saber que muitas vezes passamos por pessoas assim e sentimos apenas dó. Não temos a coragem ao menos de ajudar, de tocar, de sentir, de ser, de conversar.
Aqui cabisbaixo cheio de lágrimas senti necessidade de me esforçar mais, de perder menos tempo, de ser alguém para alguém, de valorizar as pessoas e a mim também. Não sei, mas às vezes nos levantamos de qualquer forma, mais parecemos um animal que irá cumprir racionalmente a risca seu ritual do dia. É necessário parar, sentir, olhar, perceber. Quantas pessoas dariam tudo para ser o que somos quantas pessoas não tiveram oportunidade de recomeçar como eu estou tendo de sentar na cabeceira de minha cama e recomeçar num novo dia, uma nova vida. De olhar para os limites do meu quarto e saber que posso ir adiante, avançar sem limites. Para que o novo dia que começa não seja apenas mais um dia, mas que deste novo dia façamos dias melhores, mais justos, mais humanos.
Daqui de frente ao meu computador, olhando para minha cama sei que daqui a pouco vou deitar. Talvez eu não tenha outra oportunidade de recomeçar amanha, mas também não me importo não me martirizo. Porque já recomecei hoje e este hoje já estará eternizado amanha como um recomeço do ontem sempre na esperança de amanhas melhores.

29 de outubro de 2011

FINADOS: SER E ESTAR


Chegou o dia de FINADOS. Um ato realizado e introduzido pelos cristãos desde o II século. Não vou entrar aqui em juízo de valor, não vou criticar, e nem julgar seu credo, sua crença, isto só cabe a Deus.

Afinal como já refletíamos, somos todos semelhantes, humanos, isto quer dizer que todos podem se abrir para Deus.
Mas quero refletir sobre o dia de FINADOS. Quando era criança, para mim este dia(02 de novembro) era um dia muito esperado. Pois era um dos dias por exceção que migrávamos do sítio a cidade. Não sabia ao certo o que se fazia, no dia de FINADOS, mas gostava de fazer duas coisas, além do passeio à cidade: Comer as doces e saborosas melancias que se tinha uma vez ao ano e também ficava ao lado dos irmãos e pais admirando as esculturas dos túmulos. Elas me chamavam atenção mais do que os enterrados de nossa família, até porque eu não conhecia nenhum deles. Gostava de uma escultura em particular. Era uma escultura de um Senhor de braços abertos, subindo ao céu. Esta me cativava, eu a admirava mais do que as outras.
Com o tempo percebi que aos 02 de novembro de todo ano, mamãe e pai, levava velas, flores aos nossos parentes e deixava lá ao pé daquele simples e humilde túmulo. Só fui sentir de fato o que é ausência de alguém quando faleceu meu avô paterno, JOÃO SCARPARO. A partir de então ir ao cemitério não era mais comer melancia e nem contemplar as esculturas dos santos, dos anjos, mas era ir até onde estava meu avô. As flores e as velas se misturavam com as nossas lágrimas de nossa saudade, que permaneciam por ali. Aos poucos fui aprendendo o significado da morte. Fui me tornando conhecedor do choro e da saudade, da partida repentina e da ausência futura. Assim minhas velas e minhas flores começaram a ter sentido e simbolismo, fé e esperança. Hoje já crescido percebo a importância de irmos com nossas velas e flores, num gesto de esperança, de confiança, respeito e certeza. Certeza do que? Certeza de que nós não fomos feitos para a morte. Nossa vida é muito mais, a vida transcende qualquer partida. A morte não é SER, é ESTAR. E Estar não é eterno, mas é passageiro, é momentâneo. A morte é um dado intrínseco em nós humanos. Mas a morte nunca será o fim. É fim de uma caminhada, ou um caminho aqui na terra. É fim de um laço criado para vivermos humanamente como parentes, amigos etc. O estado de mortal todos iremos passar.
Assim o estar morto dá lugar para o Ser eterno: A VIDA. O estado mortal é superado pelo ser eterno da vida.
Talvez por estes dias você esteja vivendo um LUTO por alguém. Alguém tenha partido há pouco tempo. Talvez quando se aproxima este dia, a saudade, a dor, as lágrimas chegam por conta própria. Chore sim, tenha saudade, deixe doer. Mas tenha a certeza de que a morte é estar e a vida é ser. Lembre-se sempre: seria muito incoerente termos sido diferenciados dos animais irracionais para nossa vida acabar na morte. Meu amigo e minha amiga não procure a morte entre as lembranças, as saudades, as dores. Ela foi vencida, a morte foi o rebento para vida.
No entanto, há tanta gente vivendo mortas por aí. Há tanta gente que insiste em deixar morto, quem já vive. Há muita gente aprisionando os mortos na sua consciência. Há tanta gente desprezando a vida e pedindo a morte.
No momento que eu deixei de sustentar os que morreram como mortos na minha vida, eles viveram e foram para o céu. Eu tive certeza de o que estava morto dentro de mim, ganhou vida nova e de que a morte é estar e a vida é ser.
Meu carinho, amizade e minha bênção
Padre Renato Gonçalves

7 de outubro de 2011

OS FILMES DA VIDA

Estes dias após ver ao um filme – que por sinal já reprisou muitas vezes na TV e certamente reprisará outras vezes – pensava numas coisas que nunca havia pensado, talvez sou o único, mas gostaria de partilhar um pouco com vocês.
                Existem filmes que passam e mesmo já tendo assistido sempre dizemos que já assistimos e não vamos vê-lo novamente, porém quando chega aquela hora não resistimos e nos damos enfrente a TV. É sempre assim vemos muitas vezes aquilo que já vimos várias vezes e assim será. Quem de nós nunca assistiu TITANIC uma revolucionária obra cinematográfica. Eu já assisti várias vezes, e continuo assistindo, quando posso, toda vez que é reprisado. E por mais que a gente assista, quem de nós mesmo já sabendo toda a história desejamos que ver algo diferente. Quem de nós esperou que em alguma vez que o assistimos torcemos para que ele não se colida com o ICEBERG. Assim são vários os filmes, dei um exemplo do TITANIC, mas é verdade que existem outros.
                Por que digo tudo isto? Simplesmente porque a nossa vida é um filme, raras não são as vezes que reprisamos as cenas do filme da nossa vida, mesmo sabendo o seu final. Quantas vezes nos afundamos em problemas e situações que já nos sufocaram e nos fizeram sofrer, mas mesmo assim o filme da nossa vida continua se represando sem cessar.
                Quantas vezes não queremos mudar o filme da vida dos outros e esquecemos de assistir o nosso próprio filme, cuja essência é a nossa vida. Assim vão se reprisando no filme da nossa vida, tudo aquilo que devemos deixar de lado. Por isto assistir ao nosso próprio filme é ver que ele se difere dos filmes de TV no seu desfecho. Assim temos a obrigação de dar sempre um final diferente para o final do filme da nossa vida.
                Conheço pessoas que já se acostumaram e se acomodaram com o filme da vida, e continuam no mesmo final, sem coragem para mudar. Querem antes sempre assistir ao filme da vida dos outros e desejam mudá-los. Mas esquece de mudar o próprio filme da sua vida.
                Toda vez que assisto a um filme reprisado ele me faz questionar e pensar na minha própria vida. Mostra-me o quanto eu preciso a cada dia planejar e vivenciar um final ou um capítulo, ou cena diferente na minha vida, para que ela não seja monótona e repetitiva como os filmes de TV que não podemos mudá-los.
                Olhar para estes filmes de TV e olhar para os filmes da nossa vida. A única diferença é que os filmes da nossa vida, nós somos os verdadeiros e vivos protagonistas, assim podemos sempre mudá-lo e escrevê-lo a cada dia com nossas alegrias, esperanças, tristezas, lágrimas, perdas e conquistas, mas temos a oportunidade se sempre começar. Já os filmes de TV são como são, tristes, felizes, há sempre um bandido e um mocinho, alguns deles irreais, outros ilustração daquilo que foi, mas que já não podemos mudá-lo mais.
                Nos filmes de TV, os personagens (na maioria são fictícios), e nós somos os espectadores. Já os filmes da nossa vida, nós somos os protagonistas reais e as outras pessoas os espectadores, que choram ou riem dos nossos filmes, que batem palmas quando acertamos, mas que nos cobram quando erramos.
                Por fim quando você ver o reprise daquele famoso filme de TV, tente perceber como anda o filme da sua vida. Se ele lhe parece reprisado como o filme de TV, é sinal que sua vida está monótona e precisa urgente de um novo roteiro para o filme da sua vida.

Padre Renato Gonçalves

14 de setembro de 2011

UMA NOITE SEM SONO

Já é tarde preciso dormir, mas de quando em quando parece que alguém nos rouba o sono. É como aqueles dias que fechamos os olhos e passa por nós cenas de nossa vida. Noites assim só penso numa pessoa. 
Engraçado estar aqui preso por paredes pequenas, limitadas, precisando descansar para poder bem recomeçar o novo dia, mas o novo dia já está anunciado. Embora ainda esteja escondido na noite.
Imagino enquanto estou tentando dormir, há muita gente já dormindo, sejam em palácios, hotéis, casas simples, pobres, pontes, calçadas e eu aqui no meu quarto confortável e quente. Enquanto descanso, há pessoas se cansando. Pessoas que trocam a labuta do dia pela noite. Curioso o movimento da vida, enquanto uns se doam, outros já se doaram, enquanto uns tentam retardar a noite para dormir mais, outros querem antecipar a noite para poderem descansar durante o dia. Enquanto uns lutam pra viver ou vivem lutando, outros lutam para morrer. Quantas pessoas! Imagino; neste segundo estão nascendo! Quantas estão morrendo! Quantas estão vagando sem rumo, sem direção pelas escuridões da vida. Quantas pessoas não conseguem sequer abrir os olhos e definir a noite do dia.
Curioso o movimento da vida, enquanto estou aqui suplicando pelo sono, há muitos suplicando para não dormir. Enquanto estou às portas do novo dia, a gente presa e escrava do dia de ontem. Pessoas que não perdoaram, não tiveram a coragem da renúncia, pessoas condenadas a se submeterem eternamente ao erro.
Curioso movimento da vida, enquanto algum vela por alguém adoecido num leito suplicando curas, derramando lágrimas, o adoecido dorme protegido pelas olheiras, lágrimas e sacrifícios de quem o vela. Confiando no dia já anunciado o milagre da recuperação, me lembro de meu irmão, quisera eu ter tido esperança do amanha anunciado velando por ele, pela sua recuperação. Tocar seus cabelos repartidos ao meio, tocar seu rosto e anunciar com minha presença a esperança. Velar e Confiar. Mas tive que me contentar como muitos agora que velam por alguém que se foi no minuto passado. Tentam retardar a noite na espera de um reavivamento, mas ali já não há mais o que fazer a não ser velar, afinal o que vemos ali, não nos vê mais, já transcendeu a outra realidade. Há também aqueles que estão passando a primeira noite sem seu marido, sem sua esposa, sem seu filho, sem sua filha. Curioso o início do movimento da vida para quem vai e que mistério é o movimento da morte pra quem fica.
Curioso o movimento do sono vem e vai, vai e vem. Como descobrimos que a vida é tão pequena diante de uma necessidade básica que sentimos. Como as noites de sono perdidas nos remetem a nossa fragilidade, questiona a nossa existência e nos impulsionam ao novo dia.
Certamente você já teve uma noite assim. Uma noite de sono roubado que a princípio nos fará tanta falta no dia de amanha. No entanto noites sem sono nos ajudam a rever nosso conceito, nossa ação no dia de amanhã.
Noites sem sono fazem parte do curioso movimento da vida. Não escolhemos e nem clamamos por elas, mas são elas que clamam de pedem por nós constantemente. Das noites sem sono tiro as melhores lições do movimento da vida que jamais cessará, das pessoas que estão partindo e daquelas que estão chegando.

renato gonçalves 

28 de agosto de 2011

MALA CARREGADA DE ROUPAS E VIDAS


O entardecer do domingo sempre me questiona.
É hora de chegar, desfazer as malas com roupas, objetos a cada coisa que se tira da mala, teve uma história. Dou vida para tudo o pouco que tem mala. As coisas relembram risos, medos, escolhas, opções. A mala traz gente comigo, relacionamentos, marcas. É como se fizesse o caminho inverso e assim fosse reparando as cenas que se formaram no fim de semana. Pessoas que passaram por mim na estrada, gente que jamais vi, mas que olham. Gente que não marcamos encontros, mas nos encontramos na estrada. Gente com sua história, com suas malas. Se vida nos possibilitasse vencer as barreiras da velocidade e marcássemos os nossos encontros, quantas pessoas conheceríamos. Na pastoral; reuniões, gente que diferentemente da estrada nos encontramos todos os sábados e domingos nas missas, gente que a gente até sabe aonde sentam.
Aqui do meu quarto, desfazendo a mala as roupas e outros objetos vão narrando o meu fim de semana. Eles relatam tudo os acertos, mas também denunciam meus erros aonde eu não consegui ser algo positivo para alguém, aonde em determinando momento me faltou paciência, humanidade, caridade. Mas algo me impulsiona e sigo em frente. É no cultivo dos risos e das lágrimas que vou a cada dia realizando meu sonho. Por fim tiro da mala, a última peça de roupa, uma camisa, olho pra ela e ela me remete a alguém. Alguém que me deixou incapacitado em lhe fazer algo. Alguém que pedia algo concreto e naquele momento só tinha palavras. As palavras não foram suficientes diante das lágrimas daquela pessoa. Senti-me pequeno, frágil. Agora aqui no meu canto com minha camisa relatando a história daquela pessoa fico cá pensando no que poderia ter feito e não fiz. Não que não quisesse fazer, ali não podia fazer. O que fiz foi encaminhar sua situação a outras pessoas que poderiam ajudar bem mais. Sei que mesmo tendo oferecido uma luz ficou faltando algo. Imagino como deve ser desafiador, quando depositamos numa pessoa toda a nossa sorte e confiança. Sei como é difícil cuidar de 4 filhos com 2 meses que o marido faleceu.Olho pra minha camisa e vejo a mulher e os quatro filhos. A camisa vai o cesto de roupas sujas, a mulher e seus filhos guardo no coração e na vida. A mala está vazia novamente, pronta para próxima viagem. Pronta para os acertos e os erros, para as roupas que nos lembram alguém e para as roupas que não nos deixam esquecer situações. Agora é hora de descanso e estudos e de trazer na mente aquela cena.
É hora de não se deixar acreditar nas insensibilidades dos livros e dos escritos, mas se convencer que na vida, não há livros, não há teorias; há calor humano e simples malas que relatam idas e vindas, que trazem pessoas e suas vidas conosco e cravam nelas os nossos mais simples gestos.
 
Padre Renato Gonçalves 

10 de agosto de 2011

OS PAIS E OS SUPER HERÓIS


No próximo fim de semana por excelência dedica-se o dia dos pais.
Descobrindo todo o potencial ideológico que existe na mídia convidando ao consumismo, somos convidados a descobrirmos no interior desta data um ser humano.
As vezes corremos o risco de ir colocando em nosso pai uma couraça externa e automaticamente transformamos nosso pai  num super-herói. Criamos dentro de nós uma dependência de atitudes heróicas imediatas que não são próprias de nosso pai.
Na minha infância muitas vezes olhei no meu pai e vi nele um super-heroi dos que a nossa TV Preto e Branco nos mostrava. Entendia e pensava que meu pai podia tudo, que ele podia vencer qualquer outro pai em qualquer situação. Que ele  não chorava, podia sempre nos dar tudo o que nossos olhos viam e que era imortal. É claro que os desenhos que meus irmãos e eu assistíamos na eram como os de hoje. Eram menos violentos e não pregava tanto a ideologia de que o outro é meu inimigo e que ele não é mais meu semelhante, mas é meu competidor.
O tempo passou e descobri que meu pai não era semelhante ao super-herói. Pois comecei a notar suas fraquezas, suas lágrimas, seu envelhecimento. Foi então que entendi que meu pai nunca poderia fazer o que os super-heróis faziam e aprendi  que os super-heróis jamais sobreviveriam no mundo real que pai vivia.
Além de meu pai conheço pais que são muito mais que super-heróis, são homens de coragem, garra, esperança, trabalho e lealdade. Não medem esforços para cuidarem de seus filhos. Que se dedicam na família 24 horas, diferentes dos super-heróis que aparecem na tv alguns minutos e desaparecem. Esses pais mesmo com suas particularidades, defeitos e pecado inerente a todo ser humano são gente muito mais importante que qualquer super-herói.
Meu pai, hoje olhando para os seus olhos que me permitem enxergar sua alma percebo  como és grande. Que saudade me dá, de voltar naquele tempo, que chegava ao fim da tarde mesmo com seu cansaço, tomava seu machado lenheiro em suas mãos calejadas e cumpria sua sina daquele dia. Hoje olhando para seu coração, percebo que deu a mim e a meus irmãos, teus filhos, muito mais do que poderia e merecíamos. Ô meu pai esta distância cruel revela seu sofrimento ainda hoje, sua saúde precária, e sua paciência já no limite com seu mundo de acordar cedo, sofrer serenos, chuvas e sol continua nos arrancando lágrimas e nos faz impotente.
Fico querendo antecipar o tempo para que possa viver com você alguns anos e retribuir tudo o que nos fez, te quero perto de mim, para que possas cuidar de todas as suas limitações e continuar aprendendo com você. Sonho com o dia em que poderei ser uma divina presença na sua vida, como sempre fora um deus humano na minha vida.
Hoje, meu pai, em que partilho das minhas lágrimas da sua distância, com as lágrimas daqueles que não tem mais a oportunidade de tocar no rosto, nas mãos firmes e fortes e sentir segurança, sentir protegido. Só tenho a lhe agradecer meu Pai o que me ensinaste naquela pobreza do sítio está gravado na alma e no caráter e isto nada e ninguém poderão roubar, assim como o que existe misteriosamente entre nós dois, pai e filho, filho e pai.
Perdoe meu pai pelas vezes me deixar se levar pela correria do dia, é que existe tanta gente por aqui meu pai que também precisa do seu filho mais velho. Foi a graças a você e a mamãe em que o seu filho mais velho pode deitar-se um dia homem e se levantar padre. Foi a graças a vocês que seu filho mais velho tornou-se seguidor de um outro Filho.

Padre Renato Gonçalves

29 de julho de 2011

O TEMPO E A DISTÂNCIA

Longe, distante. Atrasado, Apressado.
Palavras corriqueiras em nossa vida. A distância da família, amigos, amores do mundo que vivia. A distância que traz saudades, mas que tanto nos ensina a valor das pessoas. A distância que provoca em nós o desejo de conhecer e o gostar do novo. A distância que nos desafia. A distância que pode ser perigosa. A distância que nos move em busca de novas possibilidades e caminhos.
Assim é à distância na vida, esse é o seu papel e sempre será. Um paradoxo entre o começo e o fim, presença e ausência, tristeza e alegria, lágrimas e sorrisos.
A distância é movida pelo tempo. O senhor das coisas e determinante nesse mundo limitado! Servidor do Criador. Inventado por nós, para nos limitar, nos orientar e calcular nossos atos e ações. Para que a gente erre e aprenda acertar. Para que gente se decepcione e aprenda a recomeçar. Tempo para distanciar-se e se a distância provoca saudades, o tempo é responsável para que não exista o esquecimento. O tempo ajuda-nos a perdoar, amar, fechar feridas, esquecer magoas mudar a rota da vida.
Sem tempo como saber sobre a distância. A saudade supera a mera questão de sentimentalismo, antes cativa valorização das pessoas importantes na vida. Que movimento magnífico este! Tempo, Distância e Saudades.
Talvez hoje na sua vida exista uma necessidade de você exercitar esse movimento. Quantas pessoas se encontram distantes de você, da sua vida. Algumas longe. Outras perto, em casa quem sabe, mas tão distante do seu coração, da importância que mereciam. Deixe o tempo medir essa distância e sinta saudades dela.
Mas se você for esta pessoa que alguém de perto te deixou tão distante da vida dela, não se desespere. A distância sempre deixa caminhos e rotas para que o tempo possa trilhar e chegar até você.
O Tempo e a Distância na minha vida me ensinam a cada manhã que jamais podemos nos separar, o quanto preciso ajudar a distância deixar trilhas para que o tempo levem os amigos a mim e eu a eles.
A tua ausência provoca saudades da tua presença.

29 de junho de 2011

O MUNDO QUE CADA UM DEVE TER


Sempre me chamou muita atenção essa expressão: O MEU MUNDO.
Quando era criança lá no sítio com meus irmãos tínhamos o nosso mundo, mesmo que ele fosse cercado pelas matas e canaviais. Aquele era o nosso mundo e ele era o melhor mundo do mundo. Aquela simplicidade e humildade que se via em nossos brinquedos, nossas roupas rasgadas, nosso pé no chão e muitas cicatrizes. Mais nada disso nos impedia de sermos felizes e defender a qualquer custo que o nosso MUNDO que era o mais bonito de todos.
Hoje ainda com saudades lembramos daquilo que um dia já fomos ou fizemos. Somos assim mesmo. O Nosso tempo de escola sempre será o melhor tempo passe o tempo que passar. Nossa convivência com os amigos e os outros será sempre a melhor, passe o tempo que passar. O nosso mundo será sempre o melhor. Tudo porque nós projetamos um mundo dentro de nós e vamos alimentando esse nosso mundo por muito tempo.
Existem pessoas que projetam um mundo perfeito, de grandes sonhos e objetivos buscam incansavelmente aquilo que sempre acreditou. Mesmo que o seu mundo não seja do jeito que deveria ser, o seu mundo sempre será o melhor mundo. Falar do nosso mundo é falar da nossa família e valorizar pessoas e coisas que fazem parte do nosso dia-a-dia. É acima de tudo ainda acreditar que é possível mesmo que em sonhos, sonhar  com alguém com um mundo diferente.
Existem pessoas que não se preocupam com seu mundo. Vivem de murmurações ou de serem vítimas dos seus próprios problemas. Pessoas acomodadas que não se interessam em sonhar, em ter a coragem de arriscar. Vivem de favor, de sonhos e de vitórias dos outros. Encostam-se na própria sombra e não se mexem para e por nada. Pessoas pobres em espírito e ricas em  egoísmo, que não sonham um mundo para elas, mais querem viver o mundo dos outros. Pessoas que roubam a criatividade dos outros, que querem sempre ser reconhecidas por algo que não lhes pertencem. Necessitam de atenção sem merecerem, pessoas sem mundo é sem ideal é sem coração, sem amor, sem paz, sem esperança.
O MUNDO esse que a gente vê e que chamamos de COSMO será um dia melhor a partir do momento que o meu próprio mundo for também o melhor. É verdade que todos nós temos nossos defeitos e limitações, mais isso serve para sabermos que a partir deles que devemos iniciar a mudança.
Lembro que naquela época do sítio se nós não achássemos o nosso mundo, o mais bonito e o mais perfeito, ninguém acharia. Se tivéssemos ficado presos na nossa pobreza, deixado de sonhar por causa das nossas roupas rasgadas e se nossas cicatrizes em nossos pés tivessem nos desanimado ele não seria o melhor mundo do mundo.
Quero dizer que não devemos nunca deixar de acreditar e valorizar que o nosso próprio mundo é o melhor mundo do mundo. Se ele não é pra você mesmo o melhor mundo do mundo, não poderá ser pra mais ninguém. Pois a única pessoa responsável pelo seu próprio mundo, é VOCÊ MESMO.
Antes de roubar o mundo dos outros ou de querer mudar o mundo de alguém, saiba que você precisa sonhar e criar o seu próprio mundo.
Renato Gonçalves

2 de junho de 2011

FASES INFINITAS DE UM HOMEM FINITO

Em nossa vida passamos por fases durante o ano, como a lua, embora ela tenha apenas quatro fases, ao passo que nós temos a oportunidade de ter infinitas fases. Ao parar todos os dias, dias cansativos, dias tristes, dias de risos, dias de lágrimas, dias de desespero, dias de abandono, fases infinitas de um homem e um dia finito. Isto nos acontece o ano todo, momentos intercalados de infinitas fases da vida.
 Como é maravilhoso chegar ao final do dia, e perceber como o infinito das fases marcaram nosso dia. Como é bom chegar ao topo de um dia, retornar para dentro de si e fazer nascer ali à experiência do infinito, recorrer ao nosso canto, ao nosso jeito, ao nosso mais puro ser que não se deixou corromper pelo desânimo, pelas alternâncias das fases de um dia.
Como é bom olhar nosso quarto, nossa cama e saber que ali repousará um corpo cansado, finito, que traz dentro de si a transcendência ao infinito. Olhos abertos que se fecharão ao apagar das luzes e no desmaiar da consciência. Como é bom colocar nossa cabeça no travesseiro que tem como função apenas isso: manter-nos de cabeça erguida, mesmo quando estamos deitados. Confesso-lhes que o meu quarto é o meu mundo. De um lado uma pequena estante de livros onde recorro quando necessário. Minha cama é o mistério que me convida  morrer e nascer todos os dias. É neste canto de fases infinitas que cumpro meus dias finitos. Neste canto de realização infinita que renovo com o finito a chance de ser melhor. Como é bom ter nosso canto. Onde cada canto esconde um conto. E cada conto traz um segredo que nem mesmo a gente conhece. Como é bom proteger nossa vida infinita quando tantos querem fazê-la vida finita. Como é bom ser o que sou. Amar quem eu amo. Perdoar quem nunca exige de mim um perdão. Olhar fora do quarto e ver um mundo infinito de pessoas vivendo em função do finito. Saber que existem pessoas finitas invejosas ao nosso lado que talvez não tenham a capacidade e a coragem de entrar nas fases infinitas da vida, sobrando-lhes assim o pequeno pedaço finito da vida.
Como é bom estar no meu quarto finito, onde faço experiências infinitas. Como é bom olhar para uma mesa e ver o celular avisando que existem mensagens, ligações. Pessoas que venceram distâncias sem mesmo saírem dos seus lugares, mas que infinitamente estão ali no meu canto. Chegaram sem avisar de maneiras estranhas, com palavras finitas, mas que se alojaram no meu infinito. Como é bom ser lembrado por alguém. Como é bom relacionarmos através do infinito, de canto para canto, de quarto para quarto. De olhar para olhar. De palavras a palavras.
Como é bom viajar nas palavras sem compromisso de acertar a direção, de agradar alguém.  Como é bom ser bom. Como é bom ter fases na vida, elas nos tiram do comodismo, nos arranca SIM e nós ensina a falar NÃO. Traz-nos choro, que na última lágrima, abre o sorriso provocado pela presença e palavra de alguém que nos confortou.
É no meu canto finito de fases infinitas que acredito num mundo melhor, numa vida justa, partilhada, concretamente começada por mim. São nas contradições das fases infinitas que vou cumprindo minha felicidade no mundo finito. De ser um homem finito que não se deu ao luxo de vegetar e se acomodar na segurança garantida de uma vida infinita. De um homem que fases infinitas da vida são bem-vindas. Da mesma forma que quando mais esgota meu finito, me aproximo do meu ser infinito.

Renato Gonçalves