28 de agosto de 2011

MALA CARREGADA DE ROUPAS E VIDAS


O entardecer do domingo sempre me questiona.
É hora de chegar, desfazer as malas com roupas, objetos a cada coisa que se tira da mala, teve uma história. Dou vida para tudo o pouco que tem mala. As coisas relembram risos, medos, escolhas, opções. A mala traz gente comigo, relacionamentos, marcas. É como se fizesse o caminho inverso e assim fosse reparando as cenas que se formaram no fim de semana. Pessoas que passaram por mim na estrada, gente que jamais vi, mas que olham. Gente que não marcamos encontros, mas nos encontramos na estrada. Gente com sua história, com suas malas. Se vida nos possibilitasse vencer as barreiras da velocidade e marcássemos os nossos encontros, quantas pessoas conheceríamos. Na pastoral; reuniões, gente que diferentemente da estrada nos encontramos todos os sábados e domingos nas missas, gente que a gente até sabe aonde sentam.
Aqui do meu quarto, desfazendo a mala as roupas e outros objetos vão narrando o meu fim de semana. Eles relatam tudo os acertos, mas também denunciam meus erros aonde eu não consegui ser algo positivo para alguém, aonde em determinando momento me faltou paciência, humanidade, caridade. Mas algo me impulsiona e sigo em frente. É no cultivo dos risos e das lágrimas que vou a cada dia realizando meu sonho. Por fim tiro da mala, a última peça de roupa, uma camisa, olho pra ela e ela me remete a alguém. Alguém que me deixou incapacitado em lhe fazer algo. Alguém que pedia algo concreto e naquele momento só tinha palavras. As palavras não foram suficientes diante das lágrimas daquela pessoa. Senti-me pequeno, frágil. Agora aqui no meu canto com minha camisa relatando a história daquela pessoa fico cá pensando no que poderia ter feito e não fiz. Não que não quisesse fazer, ali não podia fazer. O que fiz foi encaminhar sua situação a outras pessoas que poderiam ajudar bem mais. Sei que mesmo tendo oferecido uma luz ficou faltando algo. Imagino como deve ser desafiador, quando depositamos numa pessoa toda a nossa sorte e confiança. Sei como é difícil cuidar de 4 filhos com 2 meses que o marido faleceu.Olho pra minha camisa e vejo a mulher e os quatro filhos. A camisa vai o cesto de roupas sujas, a mulher e seus filhos guardo no coração e na vida. A mala está vazia novamente, pronta para próxima viagem. Pronta para os acertos e os erros, para as roupas que nos lembram alguém e para as roupas que não nos deixam esquecer situações. Agora é hora de descanso e estudos e de trazer na mente aquela cena.
É hora de não se deixar acreditar nas insensibilidades dos livros e dos escritos, mas se convencer que na vida, não há livros, não há teorias; há calor humano e simples malas que relatam idas e vindas, que trazem pessoas e suas vidas conosco e cravam nelas os nossos mais simples gestos.
 
Padre Renato Gonçalves