19 de janeiro de 2011

HISTÓRIAS ILUMINADAS PELA CHAMA DE UMA LAMPARINA

Lembro perfeitamente das poucas vezes que dormi na família dos meus avôs maternos. Para nós crianças mesmo morando em sítios vizinhos era sempre uma aventura dormir na casa da vó. Talvez pelo motivo dos seus bolinhos de chuva eram mais saborosos, ou então se o seu pão caseiro, assado em forno de barro, envolto de folhas de bananeira verde, derretendo a manteiga caseira, feita de nata de leite que combinava com o café fraco, mas delicioso de minha vó. Não sei dizer se o seu arroz plantado e colhido pelo meu avô e levado a cidade apenas para seu beneficiamento tinha outros ingredientes, só sei que era diferente. Era uma família grande até então acostumada a viver debaixo de teto de palhas, madeiras e nos últimos anos; telhas. Um povo acostumado com o sol do dia, com a ausência na energia. Um povo sem TV, mas que contemplava nos mistérios da vida do pequeno foco de chama que se formava ao redor de uma lamparina movida a disel, numa roda de histórias contadas pelo meu finado avô João Scarparo. O vento que batia na pequena chama de fogo dava mais consistências às histórias de meu avô e traziam medo e temor, risos e pesadelos durante o sono....rs.....Mas dificilmente alguém deixava de participar daquela roda no começo da noite. Os barulhos dos bichos, muitos desconhecidos por nós, faziam-nos amontoarmos uns aos outros ao passo que o frio logo era aquecido pela aproximação humana, de pessoas que juntas pareciam viajar nas palavras sem estudo, mas de vida e sabedoria do meu avô. É claro que esta roda se formava numa sala simples de apenas um sofá, de cadeiras, de coisas que usávamos para nos assentar. O resto daquela grande casa era escuro. Por isso o brilho da chama da lamparina parecia um farol. Ficava ouvindo as historias e viajando no balanço dos movimentos que se formavam com o vento que batia na chama daquela lamparina feita pelo meu próprio avô. A fumaça que se misturava na escuridão se perdia na noite, assim como qualquer um de nós que quiséssemos nos aventurar sem aquela pequena, mas fundamental lamparina.
As histórias de meu avô sempre provocaram em mim saudades. Não que seja um eterno saudosista ou um eterno infeliz com o hoje. Não que seja um eterno pessimista sobre o amanhã. Não se trata disto. Às vezes à noite tenho saudades daquelas rodas ao redor de uma lamparina. Elas nos faziam tão bem, naquela mistura de ansiedade e medo. De riso e susto. De sonhos e realidades. Éramos mais humanos e mais família.
No entanto hoje, não precisamos mais de lamparinas, pois temos luzes em todos os lugares ao passo que a noite em certos lugares é mais claro do que o dia em outros. Também se acabaram as rodas ao redor de nossos avôs. Sim, é verdade que muitos já se foram. Mas os que não se foram gostariam de partilhar as suas histórias mais ocultas e quem sabe até mesmo inéditas que certamente seus pais lhes ensinaram. Porém parece que a figura de nossos avôs não tem muito mais importância na vida de muitos netos e netas. Pois os netos e as netas de hoje tem tantos afazeres, de estudo, passeios, atividades que não se importam mais com a cultura sábia de quem não pôde estudar, mas que sempre são mestres na vida. Pessoas estas que falam o que viveram e testemunham a verdade que nortearam ou norteiam sua vida. De pessoas que estavam ao redor de uma chama de lamparina mas que o tempo apagou esta chama e os esqueceram na sombra da noite.
Talvez você tenha em sua casa um avô assim, com histórias que você nunca teve tempo para ouvi-las. Acredite muitas delas são lendas, no entanto existem porções delas que você não irá encontrar em nenhum livro de auto-ajuda, em nenhuma novela, cinema, pois elas são reais e nos ensinam a viver e a vencer na vida, como poucos livros e mestres ajudam.
Fico pensado num mundo moderno em que cada vez mais pessoas se encontram na escuridão dos problemas da vida se esquecendo de seguirem as sábias histórias iluminadas pelas lamparinas, porque a fumaça das chamas estão cravadas no coração.